O jardim selvagem - A história de Eumeu

Na terceira semana de fevereiro, logo após os terríveis eventos que redundaram na morte de três recrutas, um atingido por um raios e dois empalados por raízes de árvores, além dos graves ferimentos infligidos a outros dois e o desaparecimento de um sexto, que depois relatou haver aparecido em um celeiro, a quase um quilômetro de distância, o castelo recebeu a visita de Soros Braemer. Ele fora convidado a falar para os discípulos do Duque sobre aquele infeliz evento.
Todos se reuniram no final da tarde, no salão térreo onde eram feitas as refeições, e Soros disse:
"Eumeu cresceu no campo e teve uma infância feliz e ordinária. Seus pais eram agricultores, servos de grande proprietário de terras nas cercanias do moinho que fica a uma manhã de caminhada de Reims, na direção de Tuanny. Eles eram pessoas simples, sem muito instrução e sem ambições. Vestiam as roupas que teciam e tingiam. Moravam sob o teto que construíram. Comiam do que plantavam. Um entre vários irmãos, Eumeu dividia seu tempo entre as tarefas domésticas e do campo, as brincadeiras com os irmãos e algum estudo em uma escolinha da aldeia, onde as crianças aprendiam a ler e contar. Quando tinha onze anos, sobreveio um verão estranho, de tempo particularmente ruim na região. Os ventos se tornaram violentos, as nuvens baixaram pesadas. Vieram tempestades que espalhavam os rebanhos e estragavam as plantações. Com o mau tempo, Eumeu também adoeceu. Tinha febre, tosse, dores no corpo."
"O que os pais dele não compreenderam à tempo, é que a doença do menino não era consequência do mau tempo, mas sua causa. Quando fui chamado até eles, me deparei com um cenário parecido com o que vocês viram dias atrás. Um grande torvelinho erguia-se para o céu, raios cortavam os ares, ventava muito e e chovia. A casinha deles estava toda destruída e a mãe de Eumeu estava muito ferida. Seu pai havia saído de casa com os irmãos, mas ela não quis deixar o filho."
"Ele certamente não queria ferir ninguém, nem naquela época, nem agora, mas sua mente estava se deteriorando, da mesma maneira que seu corpo... não sei se ele ainda sabia quem era ou onde estava. Eu só via nele sofrimento, desespero e desejo de que aquele mal acabasse. Acredito que no processo ele percebeu que suas vontades tinham relação com o que se passava, de modo que ele tentava, debalde, balbuciar para o ar à sua volta, gesticular, ora suplicante, ora ameaçador. Por vezes ele simplesmente se atirava ao chão, vencido, mas a agonia em que se encontrava não o deixava descansar."
"Não foi difícil detê-lo, mas tive que toldar suas faculdades mentais, pois era a partir delas e por elas que os efeitos eram causados, ainda que ele não tivesse controle sobre eles. Acredito que ele nunca soube, pelo menos não com nitidez, quem eu era ou o que eu fiz. A verdade é que eu eliminei sua vida e sua vontade e o arrastei por uma meia morte pelos últimos dez anos, tempo durante o qual tentava entender as forças que nele se agitavam."
"Como vocês viram naquela noite em que nos encontramos na taverna, ele conseguia permanecer de pé e se movimentar sozinho, com o pouco que eu já conseguira liberar de suas faculdades. Eumeu não piorou durante esse tempo comigo, mas melhorou muito pouco. Eu imaginava se um dia ele conseguiria falar, ou mesmo se aprenderia a conduzir sua aptidão..."
"Infelizmente, naquela noite fatídica, em Reims, o decurião Tristan Euthuriel resolveu fazer uma brincadeira com os recrutas que estavam de serviço no quartel, e os desafiou a derrubar aquele jovem disforme e demente, mas desmedidamente forte. O que conseguiram foi destruir os efeitos que o continham. O resultado foi o que vocês puderam ver."
"Ontem eu entreguei o corpo à família, apenas o pai dele teve coragem de ver o ataúde aberto. Pedimos a um clérigo que prestasse a última assistência ao rapaz, e o sepultamos".

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