Sieghart, por G. Palombo

As lâminas se chocaram em um estalo metálico. Ligeiras faíscas voavam enquanto o frio embalava os dois homens. Sieghart estava entre os diversos irmãos que lado a lado clamavam pela justiça dos deuses: - Arranque a cabeça do traidor! – gritou um dos homens que estava sentado ao seu lado. Ankër rodopiou com seu sabre, lançando-o contra o escudo de Ahair em um estalo oco. Imediatamente o outro afastou a arma do agressor e lançou seu machado de guerra com todo o peso do corpo. Não era homem, sim fera, não era um dos cavaleiros para lá do mar, era um vinking. A arma era brandida junto a berros, em ordem aleatória e furiosa. Ahair movia-se como uma verdadeira besta, o jovem reconhecia, mas era evidentemente desordeiro, pouco estratégico, cego pela ira. Cada golpe aparado era como pólvora para outro igualmente ineficaz. Os irmãos dançavam para frente e para trás, um atacando com fúria, o outro repelindo-o: - Valhalla! – gritou Bjorn acompanhado de grande parte dos presentes.

Uma calmaria momentânea tomou conta do conflito. Estudavam-se. Moviam-se ao redor um do outro, visivelmente cansados. Ahair gritou com todo o poder de seus pulmões lançando o machado contra Ankër, que novamente o aparou. Este percebeu uma abertura, lançando sua arma contra a cota de malha na região da cintura cortando couro e carne. Sangue banhou o chão: - URRA! Ankër! – Sieghart gritou. Buscou o pai em busca de uma reação semelhante, todavia não a obteve. Maruk estava sério, o machado encostado ao solo, sempre em frente a seu corpo como se guardasse um templo. Sua estrutura rígida lhe dava o aspecto de uma escultura. Era mais velho que muitos dos presentes, mas não havia homem que lhe superasse em combate singular; alguns esqueciam isto, muito embora não pudessem compartilhar o conhecimento quando lembrados.

Ahair tocou o ferimento com uma das mãos. Por um longo momento a insanidade tomou posse de sua face, atitude que foi seguida por um urro – Valhalla! – clamava – Hoje jantarei com os deuses! – Avançou contra Ankër, que estarrecido não conseguiu antecipar o golpe do oponente, cujo escudo lhe acertou a face arrancando-lhe alguns dentes e levando-o ao solo. Ankër sentou-se conseguindo milagrosamente cobrir a face com seu escudo quando o machado desceu novamente. Pedaços de carvalho voaram quando o ferro beijou a madeira, nela se prendendo. Não tardou a revidar o ataque do irmão, aproveitou a desvantagem para estocar sua perna com a ponta da lâmina, perfurando a coxa. Sieghart tinha confiança de que Ankër venceria a luta. Os deuses sabiam a verdade, reconheciam que sua causa era justa, assim como ele e o pai reconheceram. Tinha uma das mãos sobre o cabo do machado que estava preso ao cinto. Não conseguia senti-lo sob as grossas luvas de pele. Tempos negros, pensou, tempos em que um homem não sente o peso do aço que carrega.

Ahair silvou, arrancando seu machado. Novamente colocou-se na ofensiva, ignorando completamente o ferimento. Sangue escorria por sua perna desenhando o chão com traços disformes. Sua face estava disforme, os olhos como dois braseiros e a boca abrindo e fechando em um ritmo descompassado. Gritava e golpeava, embora mais lento devido ao sangue perdido. Quer ter seu nome escrito em uma canção. Ainda que morra sem honra, quer ser lembrado como um guerreiro destemido – Divagou Sieghart. O irmão mais novo defendeu-se prontamente do ataque, mas um som estarrecedor confirmou o que de cabelos negros temia. Durante um dos golpes de Ahair o escudo de Ankër rompeu, dividindo-se em duas metades.

O guerreiro lançou o que sobrara do mesmo para longe, passando a uma empunhadura de duas mãos. Ahair voltou a ataca-lo, passando o outro a esquivar-se. Tomado pela fúria posicionou o machado como uma guilhotina, em um movimento reto, oportunidade em Ankër lançou-se contra seu flanco esquerdo depositando sua espada, por pouco não a introduzindo na região dorsal. Ahair desviou, comprovando que sua destreza, ainda que limitada pela fadiga, era impressionante. Ankër, no entanto, usufruiu daquele ato uma profunda confiança. Tornara-se mais agressivo, dançando com o sabre em golpes diagonais. Por duas vezes Ahair viu-se forçado a se ajoelhar para suportar os ataques, vacilando sob a perna ferida. Não conseguiu se erguer na terceira descida, vendo-se obrigado a aparar com o machado um poderoso golpe de espada. O ferro cedeu, e Ankër, que segurava o cabo com ambas as mãos, atravessou-o, amputando dois dedos da mão do irmão. Ahair utilizou da dor para produzir mais fúria, voltando a ficar de pé. Subitamente colocou o escudo em frente ao corpo e, sem qualquer cautela, lançou-se urrando contra o oponente. - Entregue-se! Entregue-se! – Gritava o viking enquanto golpeava o escudo do oponente, mas o homem em sua frente não parava.

Ankër suportou o máximo que pode, até ser lançado ao chão, largando a espada devido ao impacto. Ahair tornara-se um animal. Ahair arfava. De sua boca vazava grande quantidade de saliva e sangue. Sua perna jazia negra devido ao sangue coagulado, tal qual a cintura. Apanhou o que sobrara do machado, uma lâmina disforme presa ao corpo amadeirado. Ankër tentava se levantar quando foi acertado pelo escudo do irmão, que, avançava com o que sobrara do machado em sua direção. Sieghart mordeu o lábio inferior quando o que sobrara do machado de Ahair foi fincado em Ankër, na região entre o ombro e o pescoço. O viking cuspiu sangue. Largando a espada enquanto deitava-se para a morte. Ahair, em silencio, ajoelhou-se, posicionando a espada do irmão sobre seu corpo, fechando os dedos dele em seu cabo: - Valhalla – sussurrou. - Valhalla! – os homens gritaram.

O jovem Sieghart buscou novamente Maruk. O viking permanecia no mesmo local, imóvel, com os olhos cerrados. A capa de pelo de urso batendo contra o vento. Haviam perdido, ele sabia. Os deuses haviam se manifestado contra eles. Sieghart sentiu ódio queimando em seu coração. A mão foi em direção à faixa que utilizava para esconder a órbita vazia onde existira um olho. Não era a primeira vez que os deuses o haviam abandonado.

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