Lembranças da Terceira Expulsão - por R. Raposo - sessão de 13/12/2020
Texto mais ou menos roubado de um trecho de Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar
Quando o combate ao pé do teixo se encerrou, eu estava mais cansado, ferido e desorientado do que estivera em qualquer momento nos últimos vinte e cinco anos. Desapontado, constatei que o valente capitão de minha mocidade se transformara no velho Quintus, um fazendeiro mais afeito ao sol, à terra e ao andar lerdo dos bois que às disposições dos combates.
Coloquei-me mal no campo, atrapalhei os que deveriam ter a iniciativa do combate e estaria morto à essa altura não fossem os sortilégios e feitos de armas de Hella. De fato, prudência e habilidade se perdem se não são praticados. Para piorar, logo na partida, encontrava-me quase sem equipamento, quando qualquer recruta sabe que a primeira obrigação quando chamado a combater é preparar-se.
Desde o primeiro instante compreendi que esse chamado às armas era um novo convite ao serviço dos outros, mas noto agora que não acreditei de verdade nisso, antes, e sem que eu me desse conta, minha imaginação inebriou-se com o que seria um convite a visitar os dias de juventude. Senti-me de volta aos espaços abertos, com o céu sobre nossas cabeças, as canções em volta da fogueira e o aroma da caça a dourar sobre as brasas.
Esqueci que naquele tempo, quando comandava um pequeno destacamento avançado, três dias além da Torre Rubra, recebemos as notícias de novas incursões do povo do submundo. Eu chegara a lutar no último ano da Segunda Expulsão e lembrava daquelas grandes vitórias, numa época já distante em que eu e praticamente todos os de minha geração conhecemos a vida militar, a guerra e suas perdas.
Foi com pesar que nossos líderes anunciaram que que os sacrifícios anteriores não seriam os últimos e que um inimigo renovado ameaçava as nossas fronteiras. O conflito era indesejado e inoportuno, pois a vida e o comércio se desenvolviam velozmente, bem longe, no litoral, e a maioria das pessoas preferia encarar a questão do submundo como um assunto já resolvido de uma vez por todas.
Assim, tratou-se a Terceira Expulsão quase como uma expedição punitiva. Um general assumiu o comando, com o título de Governador da Região Central e plenos poderes militares. Essa guerra durou quase um ano e foi atroz. A aniquilação das forças do submundo quinze anos antes parecia justificar-se completamente, afinal, quem aceitaria a presença de um inimigo poderoso e organizado que governava uma vasta extensão no coração de seu território? Porém, o colapso do Império dos Dragões parece ter criado um vácuo naqueles pântanos devastados e abaixo deles, a partir dos quais bandos de criaturas, vindos sabia-se lá de onde, passaram a infestar uma terra já devastada por anos de guerra e queimada várias vezes por nós, os vencedores.
Não havia local ou recursos adequados para as nossas tropas, mesmo estas sendo em número insuficiente, pois novos inimigos pareciam brotar como vermes no cadáver de nossa vitória sobre o Império dos Dragões. Pior, a lembrança dos êxitos anteriores e o relativamente longo período de paz minaram a nossa disciplina e o comportamento nos postos avançados era grosseiramente festivo, com diversos oficiais dando provas de um temerário excesso de confiança em face do perigo.
Esses oficiais, perigosamente isolados em uma região da qual só conhecíamos bem a nossa fronteira anterior, dependiam de nossa superioridade de armamentos para sustentar as suas vitórias, e a cada dia eu via essa superioridade diminuir, devido ao desgaste e às perdas. Quanto aos reforços tão aguardados, eu não tinha esperança de vê-los, pois sabia que a maior parte de nossos recursos se encontrava dispersa pelo litoral, cuja exploração e progresso era a prioridade.
Ainda outro perigo nos ameaçava, a Região Central, praticamente abandonada e escassamente povoada, não conseguia suportar nossas constantes requisições de animais e mantimentos. Suas vilas estavam arruinadas e, se aquela situação continuasse, chegaria o momento em que os camponeses, cansados de suportar o peso de sustentar a máquina militar, prefeririam conviver com os bandos do submundo.
O governador era um general benquisto e popular entre os soldados e impôs rigorosas restrições às tropas, às quais ele próprio seguia, disseminando a doutrina por ele chamada de Disciplina de Guerra, que depois tornou-se popular entre as forças militares do continente. Ele enviou de volta para o litoral os imprudentes e ambiciosos, e mandou trazer artífices e engenheiros. Ele determinou reparos nas fortificações que o excesso de orgulho deixara negligenciadas e abandonou completamente qualquer posição que fosse custosa demais para manter.
Os burgomestres, acostumados a uma quase independência, reagiam contra a situação e o futuro aproximava-se arregado com as nuvens pesadas de revoltas e divisões. O governador se livrou dos incompetentes e mandou executar os piores entre eles. Aquele oficial tão querido revelou-se também inexorável.
Os meses se passaram e sucederam-se as estações. A vida na fronteira cobrava seu preço e reduzia nossos oficiais e soldados ao mesmo nível de bestialidade de nossos inimigos. A escassez de recursos e as doenças tornavam as dificuldades da campanha piores para ambos os lados. Os inimigos começaram a queimar vivos os prisioneiros. Nós começamos a executar os nossos, ante a falta de recursos para conduzi-los como escravos ao litoral. As estacas das paliçadas foram coroadas com cabeças. Os inimigos torturavam os seus reféns, muitos pereceram, outros sobreviveram, terrivelmente desfigurados.
O terreno clamou também suas vítimas, grupos de cavaleiros que atolavam nos pântanos, ou eram carregados pelas correntes, soldados vitimados pelo peso de suas armaduras, grupos de batedores inexperientes que simplesmente desapareciam sem deixar vestígios.
Em meio a tudo isso, eu e um grupo de oficiais nos juntamos em torno do General, uma companhia de soldados devotados, que demonstraram a mais elevada forma de virtude, que é a determinação de servir.
Um fugitivo das forças de nossos inimigos, que passou a atuar como intérprete para nós, arriscou-se para retornar às suas fileiras de origem e fomentar a revolta e a traição. O líder de um dos grupos contra os quais lutávamos concordou em passar para o nosso lado e, daquele momento em diante, os seus guerreiros passaram a lutar para proteger os nossos postos avançados.
Alguns ataques destemidos, aparentemente imprudentes, mas habilidosamente calculados, mostraram aos inimigos o absurdo que era nos enfrentar. Um dos líderes adversários, seguindo o exemplo de seus ancestrais, foi encontrado morto em sua tenda, com todas as suas esposas, estranguladas, próximas de horríveis berços com os corpos de suas crianças.
As perdas mostravam a sua futilidade e o desperdício que representavam. Quantos daqueles mortos poderiam ter sido absorvidos por nós e poderiam, em algum tempo futuro, ser nossos aliados na luta contra hordas ainda mais selvagens e hostis.
Finalmente, os últimos atacantes desbaratados desapareceram como vieram, para as profundezas, rumo àquela obscura região de onde ninguém duvidava que outra tempestade viria, mais cedo ou mais tarde.
Com a vitória, enfim, a ordem voltou a reinar. Até agora.
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