Vikings - sessão de 11/12/2011 - autor: Érico
ÚLTIMOS DIAS DE INVERNO
Aproximava-se o final de mais um inverno. Espremidos no estreito espaço entre as rochas que protegiam o altar de Freya, um pequeno grupo esperava que o sol se elevasse o suficiente para atingir a pedra sacrificial. Eles estavam se reunindo ali a cada alvorecer, já há algumas semanas, compartilhando dos preparativos que a própria natureza ao redor deles fazia à medida que se aproximava o equinócio e, com ele, a tão aguardada chegada da primavera.
Em meio a uma ou outra prece, entremeadas de gracejos e da repetição das poucas novidades da aldeia, surgiram os primeiros raios de sol, agora muito próximos de atingir o ponto tão desejado. Nesse instante, fez-se ouvir a voz estridente e levemente anasalada da tia Areta, convocando-os para iniciar mais uma vez a rotina de todas as manhãs invernais: instrução dos jovens e das mulheres solteiras da aldeia no manejo de armas.
| O altar de Freya, protegido por pedras empilhadas |
Mal Maruk fora chamado para educar os mais novos com seus irmãos de armas, Ikol mais uma vez iniciou seu discurso sobre como luta um homem de verdade, sem esquecer de citar que o arco era uma arma de covardes. Maruk sabia que seu irmão brincava e que estava provocando-o propositalmente, mas o caçador sabia que no fundo aquilo refletia o pensamento da maioria, especialmente entre os mais novos, e isso o feria mais que qualquer arma empunhada pelos cristãos.
Mesmo assim Maruk tentou uma vez mais, disparando uma flecha entre as pernas de Ikol, ele gritou desafiando quem entre os jovens guerreiros queria testar sua habilidade com o arco e prometeu tomar como seu aprendiz de patrulheiro o mais habilidoso. Uma vez mais, ninguém entre os homens se interessou, todos estavam seguindo a Bohr ou a Ikol, enquanto Bakar tentava uma vez mais, futilmente, conter os excessos nos exercícios. Rapidamente Maruk estava novamente cercado por mulheres da aldeia, que sempre se interessavam por suas histórias de grandes caçadas e mesmo sobre o que ocorrera nos conflitos em que Maruk tomou parte com os homens de sua aldeia.
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| Helga e Edna, as irmãs mais velhas de Maruk |
O caçador sentou-se e permitiu uma história antes de iniciar o treinamento, para uma vez mais familiarizar seu público com a utilidade do arco e da necessidade de se estar preparado para uma investida corpo-a-corpo. Assim, mal Ikol começara a fazer galhofa do treinamento de Maruk, o caçador já estava ensinando a postura e a forma correta para disparar um arco e terminaria mostrando como sacar rapidamente uma espada para reagir contra uma investida frontal.
Terminado o treinamento, como de costume, os alunos de Bohr estavam satisfeitos, os de Ikol consideravelmente feridos e extasiados, as de Maruk pensativas e sorridentes e os de Bakar cansados. O caçador preferia ter estado na mata, assim não teria de escutar mais provocações de seu irmão.
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| - Não. Não gostamos de arcos e lanças! |
Retornando do campo onde estiveram praticando, como de costume encontraram escorado no corrimão da ponte o velho escravo Harry O'Sheare. Caquético, caduco, rabugento, inútil para qualquer trabalho e praticamente incapaz de se mover sozinho, o velho desgraçado ainda assim tinha forças para recebê-los com pragas e maldições enquanto cruzavam a ponte e seguia os machucados até o poço próximo para lavar e cuidar de seus ferimentos. Harry dedicava especial carinho a Bakar, que sempre o tratava com consideração e respeito, chamando-o de feiticeiro maldito ou coisa pior.
A CAÇADA
À tardinha Maruk saiu para caçar com Bohr, o que foi muito bem vindo, pois as caçadas podiam durar dias, requeriam muita paciência e silêncio e Bohr não tinha o hábito de tagarelar constantemente como seus demais irmãos de guerra. A temporada ao fim do inverno era fraca mas, agora, com os animais retornando, já era possível achar alguma carne para garantir refeições melhores à vila.
E os caçadores estavam com sorte, após algumas horas, eles acharam uma caverna de onde com certeza um urso havia saído há pouco. Bohr não era somente silencioso e atento, mas também muito habilidoso em comunicação manual - certamente daria um bom caçador se resolvesse se dedicar àquilo - e tão logo Maruk sinalizou ele já se escondera no alto de outra árvore, enquanto Maruk subia uma próxima. O urso era vivido e prudentemente avaliou o terreno antes de se expor, porém, seguindo seus instintos animais, quando Maruk denunciou a própria posição o urso escalou a árvore próxima e pôs-se a tentar derrubar o caçador.
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| Mesmo após a hibernação, o urso devia pesar bons 300 quilos |
Equilibrar-se em árvores era entretanto uma das especialidades do patrulheiro e o urso viu-se em desvantagem quando uma flecha quase o atingiu na cabeça. Descendo rapidamente, o animal tentou fugir dali, mas acabou atingido no flanco por uma flecha de Maruk, enquanto uma outra de Bohr passara raspando. Dali rastrear o animal ferido tornou-se fácil. Maruk explicara a Bhor que a opção de fuga do urso demonstrara que não era uma mãe defendendo filhotes e que, como este já sabia, o ataque do urso visava defender território e saciar sua fome após a hibernação, somente depois de confirmar isso o caçador decidira de fato que deveriam abater aquela presa.
A perseguição durou um dia inteiro, mesmo ferido, o animal estava disposto a lutar por sua vida, levando os caçadores para longe. Depois de abatido, o grande animal teve ainda de ser esfolado e preparado para transporte. Com o sucesso em seu intento, regressaram à aldeia com bastante carne e uma vistosa pele de urso.
VIAGEM À ALDEIA DE CIMA
Logo após o regresso da caçada, Ikol relatou que o velho coxo Leif, líder da vila pouco mais acima do rio, estivera em visita, e além de mostrar interesse pela azeda tia Areta - o que para Maruk já fazia dele um herói - oferecera suas netas como candidatas para desposar homens da tribo.
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| A doce tia Areta é uma razoável ceramista, além de saber usar uma lança |
Era conhecido que a tribo de Leif, antes bem maior que a de Maruk, era agora uma comunidade decadente, pois praticamente não tinha homens. À mesma época que os transmorfos atacaram sem sucesso a vila de Maruk, os ataques na vila de Leif foram muito mais graves e eles nunca se recuperaram das severas perdas, mesmo passados dez anos.
Reunida a aldeia em assembléia, todos concordaram em enviar uma comitiva para conhecer as netas de Leif e apresentar a vila de Leif à tia Areta. Não era segredo que a vila de modo geral ansiava por um casamento da tia Areta e, embora Leif não fosse mais nem de perto um homem atraente, ele era um guerreiro valoroso e respeitado, ainda que suas preocupações atuais restringissem-se à sobrevivência de sua tribo, seu legado.
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| O velho Leif, da aldeia de cima do rio da Névoa |
Uma coisa no discurso de Ikol sobre o que o velho Leif declarara chamou no entanto a atenção de Maruk, ele explicara que seus campos de caça estavam fracos, sem presas. Isso era estranho, a vila de Leif não poderia ter exaurido os campos sem grandes caçadores, logo, não havia motivo para escassez.
A partir desse momento um mal pressentimento passou a acompanhá-lo e o fez insistir em partir o mais rápido possível, pois ele ansiava em pedir a permissão de Leif para investigar o que acontecia em seus campos de caça, o que Maruk tinha certeza que poderia ser uma grande ameaça a ambas as vilas. Ele poderia até mesmo ter feito isso sem pedir permissão e nesse caso estava certo que nem Leif nem seus amigos saberiam, mas Maruk acreditava em honra e não conduziria sua investigação sem antes solicitar a Leif.
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| Os barcos da aldeia de baixo |
No dia seguinte zarparam para a vila vizinha, e ao chegarem lá todos foram bem recebidos, Ikol que já não ocultava sua insatisfação com sua esposa Varna por não ter-lhe dado outro filho nos últimos quatro anos foi abertamente cortejado, por duas irmãs. Tia Areta queria apenas conhecer o vizinho e continuava sem demonstrar qualquer interesse no velho Leif. À noite nos fariam um banquete e embora desde cedo eu tivesse explicado meu interesse em investigar a mata da aldeia, o velho Leif ainda ficara de dar uma resposta, tendo mencionado apenas que seu melhor caçador era um jovem de nome Peter.
Maruk explicara que desejava ir investigar a mata com Peter, pois embora sua intenção verdadeira fosse fazê-lo sozinho, uma vez que o pouco experiente rapaz provavelmente só atrapalharia Maruk, ele jamais pediria para fazê-lo, para não ser desrespeitoso. No entanto o caçador viria a almadiçoar o fato de não haver insistido mais em ir de imediato, o que poderia tê-los avisado previamente do que estava por vir.
O ATAQUE
À noite, pouco antes das festividades e enquanto reunidos na Sala Comunal os visitantes foram supresos por uma séria de eventos terríveis. Pouco antes, Bakar explicara a Maruk e a Bhor que presenciara um transmorfo 'vestido' como um dos membros da aldeia de Leif, e que ele raptara uma criança no intuito de atrair Bakar (que nos revelou ser capaz de transformar-se em um gato, tendo assim sido capaz de 'enxergar' o transmorfo em sua forma verdadeira e vice-versa), Bakar explicou ainda que a vila na qual viviam era protegida magicamente por totens sob a responsabilidade da velha Úlrika, e que a vila de Leif não tinha aquelas proteções, assim como não honrava o altar de seus ancestrais. Maruk e Bhor tentavam ainda assimilar o que Bakar os passara rapidamente, e já estando todos na sala comunal, um corpo de criança com a garganta cortada foi atirado dentro do salão.
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| Casa Comunal da Aldeia de Cima |
Passaram a ouvir então vários passos rápidos do lado de fora, quando uma lança atravessou uma das paredes atingindo uma coluna. Maruk agradeceu aos deuses por guiarem suas mãos, pois num rápido movimento disparou contra o oculto agressor e através da parede ouviram o grito da vítima, que no entanto não fora abatida.
Saíram Maruk, Ikol e Bakar, enquanto Bohr postou-se junto à porta. O arqueiro ocultou-se o mais rápido que pode em uma casa ao lado, enquanto ouvia os gritos de Ikol e Bakar, atingidos por pesadas lanças. Uma vez mais o caçador disparou contra um vulto, e o barulho seco seguido de um urro inumano revelara que uma vez mais obtivera sucesso, Maruk calculou então, o que fora confirmado por Bhor em sua avaliação, que seus inimigos deveriam ser em torno de 10 a 20 transmorfos.
Outros contaram ter ouvido um grito horrível quando estavam dentro da sala comunal e que, ao sair, depararam com uma jovem degolada. Lanças foram então arremessadas da escuridão contra os que estavam próximos do cadaver, ocasião em que Maruk revidou ferindo alguns dos atacantes.
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| Salão de banquete da casa comunal da Aldeia de Cima |
Naquele momento, Maruk já havia retornado à casa comunal sem ser avistado pelos inimigos. Ouviram passos no telhado, Ikol, mesmo ferido, decidiu escalar internamente a edificação para atingir uma passagem para o teto, e Maruk o seguiu para dar cobertura. Bakar parecia executar um encantamento para auxiliar os demais. Não sabia-se, no entanto, se Bakar conclamava os espíritos dos ancestrais de Leif para os protegerem ou se seu intuito era outro...








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