Ilberic Tuck - relato da sessão de 26/9/2012 - por R. Raposo
Acordei em um lugar desconhecido, dentro d'água, acorrentado a três seres humanos. Um de meus primeiros pensamentos foi: qual deles me capturou?
Estava nu, a água era turva, mas não propriamente suja. Um dos humanos estava acorrentado no ar, e logo revelou-se capaz de utilizar alguns artifícios mágicos para se libertar. Outro estava preso sobre uma fornalha e pareceu-me incapaz de libertar-se sozinho. O terceiro estava enterrado sob algo que parecia uma mesa e conseguiu mover uma chave sem tocá-la.
Por que causas estava eu preso com eles, não recordava. Minha última memória era de Halfast se despedindo de mim.
Com relativa facilidade, ainda mais considerando a complexidade da armadilha a qual estávamos atados, o humano acorrentado no ar conseguiu soltar-se. Ele não nos libertou logo, preferiu aventurar-se por um corredor, de onde voltou com uma elfa, vestida como as mulheres humanas se vestem quando querem atrair atenção.
Eles nos soltaram e em seguida encontramos alguns artefatos sobre uma mesa, todos eles mágicos, poderosos e de grande valor, acompanhados de um bilhete agradecendo os nossos serviços.
Aquilo tudo estava ficando cada vez mais misterioso. Encontramos uma porta barrada, que podíamos abrir por dentro, detrás da qual vinham ruídos. Encontramos uma passagem por detrás de uma tapeçaria, onde estavam desenhados um ser metade anjo e metade demônio. E havia dois corredores. Um no qual foi encontrada a elfa e os artefatos e outro que descia.
Abrimos a porta barrada e de lá saiu um cão enorme com três cabeças. Eu encontrara minhas roupas, arco e aljava no chão e estava com uma flecha assestada quando o monstro saiu. Atingi-lhe no olho esquerdo da cabeça do meio. Isso foi suficiente para assustá-lo, mas não para matá-lo. O que acabou com a criatura foi uma impressionante demonstração de poder do homem que estivera enterrado, que revelou-se, na verdade, um mestiço de elfo e humano. Com um simples movimento das mãos ele fez com que a criatura fosse arremessada violentamente contra a parede, perecendo instantaneamente.
Decidimos descer para averiguar os ruídos de cães que ouvíamos lá embaixo. Não querendo deixar desguarnecida a passagem na tapeçaria, prontifiquei-me a permanecer na sala enquanto os demais desciam para explorar. Os dois humanos estavam desarmados, mas o poderoso meio-elfo portava uma espada de porte invulgar, cujo extensão da empunhadura indicava que poderia ser utilizada com uma ou com ambas as mãos.
A elfa ofereceu-se para proteger a nossa retaguarda em meu lugar. Desconfiei dela. Na verdade, eu não daria as costas a ninguém ali enquanto não soubesse o que estava acontecendo. Rachele, era como a orelhuda se apresentara, disse que ficaria comigo. Contemplei as três adagas perfeitamente afiadas que ela trazia na cintura, escolhi uma parede de onde pudesse observar o túnel e ela, e me encostei, com o arco semi-teso. Uma parede sólida é melhor amigo que qualquer desconhecido.
Logo ouvimos ruídos de combate. A elfa me olhou como quem diz, você vai lá? Fiz sinal a ela para que descesse, ela e sua adagas cintilantes.
Dali a pouco Rachele gritou por ajuda. Desci lentamente o túnel, as costas na parede, a corda do arco esticada, olhando ora para a luminosidade das tochas lá embaixo, ora para a sala que ia ficando para trás. Ao chegar no recinto, observei ao fundo uma pilha de cadáveres putrefatos. Percebi num relance que Damian, o humano que estivera suspenso no ar, entretinha-se com um cão, que não o atacava. À minha frente, o outro humano, Karl estava sendo atacado por um cachorro e parecia em apuros, vi que a elfa estava aflita por ele, "Eis uma chance de saber do que ela é capaz", pensei. À minha direita, Kaliel, o mestiço, jogou violentamente o escudo para o outro lado da sala, enquanto encarava furiosamente um cão que o enfrentava. Já tivera ocasião de admirar a fúria de guerreiros humanos e elfos antes, e sabia que não deveria intrometer-me em seu combate. Retornei à minha posição, e esperei.
Eles subiram de volta pouco tempo depois, como eu esperava. Traziam um cão e um garotinho. Meu horror foi grande quando o menino humano começou a falar de um jeito e de coisas que denotavam estar seu corpo ocupado por algum tipo de demônio. Aturdido, fiz uma pergunta, nem lembro qual, e o ameacei. Sua reação foi abrir os braços e convidar-me a atirar, o que fiz sem pensar.
Só recobrei algum senso quando a criança ensaguentada caiu e o cão me encarou. Em seguida, Rachele deu mostras de estar sendo controlada pela entidade e disposta a usar suas adagas. A situação era ainda pior do que parecera e minha única reação foi, pateticamente, tentar pensar o grave ferimento que eu mesmo impusera ao menino.
Após um impasse que me pareceu eterno, deixamos para trás um cão aparentemente inofensivo, mas em cujo interior habitava aquela ameaça atroz e tratamos de entrar na passagem por trás da tapeçaria.
Vi que meus colegas de jornada me encaravam com horror. E aquilo só aumentava minha angústia a cada passo que Damian dava, carregando o menininho. Ao mesmo tempo, tomava conta de mim a necessidade de tentar impedir que aquele demônio deixasse aqueles subterrâneos. Adiante, outra cena dolorosa: encontramos o corpo do filhinho de Klaus, eviscerado.
Meus sentidos estavam atordoados. Desconfiança, culpa, obsessão giravam em minha cabeça. Eu parecia habitar num pesadelo, sem saber de onde vinha ou para onde ia, eu apenas seguia, tomado por uma terrível sensação de morte. Só agora, enquanto escondido observo os cadáveres de crianças - eram crianças! - serem retirados por um soldado, e sinto as lágrimas escorrerem por minhas faces, principio a voltar à razão.
Mas encontrar o cadáver do filhinho de Klaus não foi o fim da história. Ao sair dos subterrâneos, ouvimos ruídos. Ocultei-me acima da saída, por trás de umas pedras, e assisti meus companheiros serem capturados e conduzidos por um grupo de cavaleiros. Pelo diálogo que tiveram com seus captores, soube que estes estavam vigiando as saídas do subterrâneo, onde desconfiavam estar os responsáveis pelos desaparecimentos de muitas crianças nos últimos três anos. Quando se retiraram com os prisioneiros, os segui.
No entanto, deti-me ante a lembrança do que deixava para trás e retornei. Acompanhei três soldados que entraram no túnel, os assisti liquidar os cães que devoravam os corpos das criancinhas e vi quando um cão encostou o focinho na perna de um soldado. Supus que naquele momento o demônio tivesse assumido o controle do humano, assim como já o vira fazer com Rachele e com a criança que feri.
Escondido nas sombras, o aguardei. Ele me viu e travamos um terrível diálogo. Ele insinuou que eu fora um dos responsáveis pela morte daquelas crianças e, para meu horror, disse que meu amigo Rufus, poderia estar naquela pilha de corpos sem vida - morto por mim.
Quando ele me deu as costas, disparei uma seta em sua nuca, apenas para descobrir, desolado, que assassinara um inocente, pois o monstro no mesmo instante ocupou o corpo de outro soldado.
Fugi dele e o aguardei do lado de fora. Novamente o monstro me percebeu e desafiou-me a atirar nele - no soldado. Impotente, baixei o arco e o vi assumir o controle de um cavalo e sair em disparada.
Procurei então um lugar escondido perto da saída, de onde agora observo os corpos serem retirados. Tremo ante a possibilidade de ver uma feição querida. De todo modo, o ar puro e a luz do dia começam a ajudar-me a recobrar o senso.
Preciso certificar-me se Rufus ou algum outro conhecido está entre os mortos. Devo seguir os rastros de meus companheiros feitos prisioneiros e procurar saber a sorte que lhes coube.
Pelo aspecto dos soldados, estamos em um dos reinos do oriente.
Tenho de saber onde se encontra o destacamento de fronteiros mais próximo e investigar há quanto tempo estou desaparecido.
Um grande mal está a solta. Ele é insidioso e é impossível detê-lo.
Rufus. O Condado. Eu tenho de voltar.
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